segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ouça Billie ao lado. Em tempo: Strange Fruit, pra quem tá chegando agora, eram os negros pendurados nas árvores (cortesia da Ku Klux)...

sexta-feira, 17 de julho de 2009


E como se, depois de ter matado a velha, o seu desejo por sangue continuasse forte, pegou o cutelo e cortou três dedos de sua mão esquerda. Enquanto lambia o líquido viscoso, olhou para a sua imagem no espelho. Era a da velha.

Passava as unhas no veludo negro e abria ali sulcos de sangue; no brilho das pedras preciosas e no ouro de seus cofres ouvia os gritos de suas vítimas. Dos velhos, tirara a paz, dos adultos, a esperança, e, das crianças, a inocência. Era a encarnação do sucesso.

Madrugada, na estrada que ligava o balneário ao centro da cidade, só o casal, no carro que acabara de pifar. Aqueles que riam e escarneciam dos que acreditavam em deus, vida após a morte e almas do outro mundo. Ainda bem, pois como se explicaria aquela máscara de pavor congelada em seus rostos na manhã seguinte?

Ela adorava tudo o que fosse de couro ou pele natural; em sua casa, nas suas roupas e nas de seus filhos. Quando o primogênito faleceu, em meio à dor, teve a nítida impressão de tê-lo ouvido na pele do abajur; agora, ali, estirada no meio da sala, sentiu que alguém pisava sobre ela.

No mármore frio, a sua amada jazia branca, nua e fria. Parou a doce contemplação para abrir a porta para o homem da funerária que trazia o belo caixão que encomendara. Adorava Shakespeare, era um romântico, e não queria que a amada partisse sozinha. O homem coube direitinho.
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